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História

História

Institucionalização da vida comunitária em Recife

* Adaptação de texto gentilmente cedido pela Dra. Tânia Kauffman, do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco

Para entender os efeitos de uma nova dinâmica social sobre a identidade do grupo é preciso conhecer a estruturação da vida judaica em Pernambuco. Algumas características básicas fizeram-se presentes, principalmente as que se referem à organização social e à linguística. Neste ponto, deve ser aberto um parêntese sobre alguns destes aspectos que foram preservados ao longo da história do judaísmo, diante da finalidade de buscar seus referenciais na memória coletiva da atual comunidade.

No Recife, como Congregação, eles são identificados a partir da década de 1910, quando fundaram as primeiras instituições típicas da cultura judaica. O primeiro grupo que aqui aportou, em sua maioria, vivia anteriormente, nos shtetlech, espalhados pela Polônia, Lituânia, Ucrânia, Galícia e Bessarábia . Em número menor, no período da Segunda Guerra Mundial, vieram, também da Alemanha, Áustria e Hungria. Entretanto, estes últimos, não constituíram formações significativas no Recife, a exemplo do que ocorreu em São Paulo, onde atualmente, formam comunidades auto-suficientes. Da Grécia, Turquia e Marrocos vieram também grupos de sefaradim mantendo, até a década de 1950, algumas das especificidades de sua cultura.

Os primeiros que chegavam, à medida que prosperavam, retornavam às suas cidades de origem na Europa, para buscar o resto da família ou para propósitos de casamento. Divulgavam que o Brasil era uma terra de grande desenvolvimento e poucos conflitos religiosos. Com isso, geravam expectativas suficientemente atrativas para os familiares e amigos, diante da possibilidade de seguirem o mesmo caminho. Ainda mais que recrudescia na Europa, a violência dos pogroms, tornando inviáveis as mínimas condições de sobrevivência. E assim, naqueles países, circulavam notícias das facilidades de vida na América. Os Estados Unidos exerciam grande poder de atração sobre os refugiados europeus. Até 1921, este país absorveu quase 90% dos imigrantes. Naquele mesmo ano, entretanto, foi estabelecida uma quota anual para recebimento de refugiados. (Elkin, 1980:78)

No início, a imigração não foi em grupo familiar. Vinham primeiro os homens e, quando conseguiam parnassá (meio de vida) e uma quantia de dinheiro suficiente, mandavam buscar os parentes. Era frequente que a reunião da família só ocorresse após vários anos, principalmente para aqueles que foram surpreendidos com a irrupção das Grandes Guerras interrompendo as comunicações.

Como se organizaram na fase de adaptação

A chegada a Pernambuco constituiu uma ruptura com o judaísmo tradicional do shtetel e foram obrigados a reelaborar os limites entre a vida judaica no meio comunitário, no espaço da casa e no espaço público local. No espaço público sentem-se estimulados a uma transposição das resistências normais à chegada de estrangeiros. Estava implícito já na própria decisão de migrar que, deveriam se desligar das rígidas normas das tradições judaicas, embora a expectativa fosse a possibilidade de um prolongamento da vida que levavam no shtetel.

Uma carta escrita em ídiche, em 1956, pelo Sr. Avrum Ishie Vainer, um dos oito primeiros imigrantes que chegaram ao Recife em 1911, ilustra a preocupação com os rumos da institucionalização de uma vida judaica. Existe uma versão traduzida por Abrahão Rissin, na época tesoureiro e membro ativo da diretoria Executiva da Sociedade Israelita, em 1956, e outra, traduzida por Beatriz Schvartz, em 1998, para o Arquivo Histórico Judaico. Esta carta foi assinada por treze pessoas que formavam a comissão do Centro Israelita de Pernambuco, em 1956.

O cotejo desse documento com partes de outros depoimentos levantados na pesquisa representa uma escuta do passado dessa comunidade, destacando-se as principais preocupações com a manutenção do sistema normativo do judaísmo; além disso, constitui-se em fonte de referência sobre a periodização da instalação das principais instituições judaicas na comunidade.

A educação

Existia uma polêmica em torno da data de fundação da primeira escola judaica no Recife, mas com base em vários depoimentos e recortes de jornais da época, foi possível se estabelecer o ano de 1918 como marco oficial das primeiras instituições instaladas em espaço comunitário. Tudo indica que tenham saído do Cais José Mariano, onde funcionou a primeira Ídiche Schul, para a Rua da Imperatriz, nº 41 e nº 222, conforme relata Clara Sirkis, imigrante chegada ao Recife em 1919, com 11 anos de idade em depoimento gravado em 1990.

(…) quando eu cheguei aqui já existia uma escola judaica para as crianças pequenininhas. Não tinha nome, não. Era a Ídiche Shul. Funcionava no Cais José Mariano, duas casas antes do nosso armazém. Lá, foi a primeira escola judaica. Quem ensinava foi um professor que trouxeram do Rio ou de São Paulo (…) e depois do Cais José Mariano, quando chegaram mais pessoas, então alugou-se na Rua da Imperatriz, num 2º andar, em frente ao nº 77, um salão onde fizeram lá as festas e a Sinagoga… E quem estava lá foi Leão, meu irmão e David Dimenstein. E papai, que ajudava a dizer o que precisava…

Outro depoimento (gravado em 1990) sobre o assunto é do Sr. Isaac Posternack, imigrante chegado ao Recife em 1921 com 10 anos de idade:

(…) o primeiro Clube foi no Cais José Mariano junto dos bombeiros. Hoje alí é o escritório de Getúlio Katz. Lá tem uma casa azul, no 1º andar era o Clube Israelita. E, aí ensinava-se…

Reforçando estas informações existe uma matéria publicada no periódico A Voz de Israel, do Centro Cultural Israelita de Pernambuco, em agosto de 1948, por David Bem Israel, ex-aluno do Colégio. Neste informativo, sob o título 30o Aniversário do Colégio Hebreu Idish Brasileiro e sua nova sede, inclusive, é possível acompanhar fatos importantes da vida da comunidade. A data da publicação, 1948, é coincidente com a informação acima transcrita, o que permite situar no ano de 1918 a intalação da primeira entidade educacional judaica no Recife, pertencente a atual coletividade. No Anexo B contém na íntegra o referido artigo.

De lá, mudaram para a Av. Conde da Boa Vista, 532 (antiga Rua Formosa) em dois endereços: um, onde existe o atual Edifício Tabira e outro, onde funcionava o Sindicato dos Bancários. Outros locais citados foram a Rua da União, Rua do Riachuelo e Praça Maciel Pinheiro. Com base em documentos existentes, os endereços mais recentes foram: Rua da Glória, 215, Rua Dom Bosco, 687, Rua Henrique Dias esquina com a Rua Dom Bosco (onde a escola funcionou temporariamente) e Rua José de Holanda, 792, onde funciona até hoje, congregando o colégio, o clube, a biblioteca, outras entidades, e, eventualmente, os serviços religiosos das principais datas (Pessach, Rosh Hashaná, Iom Kipur).

Ao longo desse tempo, a instituição educacional judaica no Recife foi conhecida como: Ídiche Shul (em torno de 1918), Colégio Hebreu Idish Brasileiro, Colégio Hebreu Brasileiro, Ginásio Israelita de Pernambuco, Colégio Israelita Moisés Chvarts (desde 1967) .

O Colégio nas décadas de 1920-1930-1940-1950-1960-1970-1980-1990
Avervo do AHJB – Sec/Pe

 

Centro Israelita de Pernambuco

Sobre as primeiras entidades da época é pertinente extrair da carta mencionada no Anexo A trechos que, organizados cronologicamente, permitem uma visualização da evolução das preocupações com a institucionalização da vida judaica no Recife, independente da atmosfera de apreensões inerentes a uma instalação em nova sociedade como resultado de processo migratório dessa natureza.

Aliás, os imigrantes, quando solicitados ao relato de fatos sobre esse tema, demonstraram que não foram alcançados por atitudes restritivas quanto a mobilidade social ou espacial na vida urbana do Recife, muito menos, para construir um espaço particular judaico principalmente, até a década de 1930. Até a chegada dos imigrantes do segundo momento migratório neste século (anos 1940-1950) as instituições foram se consolidando através de algumas especificidades, tais como, a tendência para viver um judaísmo com base na tradição e sustentado pela consciência histórica. Para acompanhar cronologicamente a evolução dos acontecimentos mencionados recorre-se a fala de Avrum Ishie Vainer, imigrante chegado ao Recife em 1911:

1911-1912 (…) até setembro de 1912 os dias de Iamim Noraim [dias festivos] existiam 24 judeus, kain hore…[livre de olhado] Já existiam 24 famílias…

1913-1914 (…) em 1913 chegou o Sêfer Torá mandado para o endereço de Pinie Rabin… o segundo Sêfer Torá chegou em Simchat Torá [Festa da Torá] de 1914. Agora já havia entre os sukuroner [vindos de Sukuron] mais de quatro minianim. Assim que nós já rezamos separados. O sukuroner Sêfer estava na minha casa e todo sábado nós fazíamos o minian

1915-1916 (…) em 1915 nós rezamos na casa de Mendel Moshiach. Ele tinha uma casa grande. Eu era o chazan [cantor] e o clima era de alegria e reunia as pessoas mais velhas.(…) Avraham Cherpack, Scholem Fainboim, Elik Foigel, eu, e também alguns rapazes… e se mandou fazer um Aron Kodesh [Arca Sagrada], um umet, e se comprou 18 cadeiras shanke. Avrum Cherpack deu uma mesa com uma bela coberta com armário. Isso ficou pronto para os Iamim Noraim de 1916. Nós já rezamos num salão grande, quer dizer, no Beit Haknesset Sukuron.

1918-1919 (…) daí, se os judeus kain hore, já formam uma grande colônia, já se começava a discutir a respeito de iener velt [outro mundo], que os judeus precisam ter um cemitério. Idn, az me vil tit men [judeu quando quer faz]. Então foram iniciados os trabalhos e se comprou um terreno: vert gemacht a sociedad, mit dem nomen Center Israelit Pernambuco [e se fez uma sociedade com o nome de] (…) alugou-se um belo salão e se trouxe 2 professores judeus e 2 professores brasileiros e já se começou a tratar de comprar um prédio onde coubessem todas as instituições judaicas.

Nos primeiros anos da formação da comunidade judaica do Recife, o local de encontro funcionava como sinagoga, escola, clube social e esportivo, agrupando as características de cada uma dessas instituições. Configurava-se como centro de relacionamento entre judeus, onde a própria identidade judaica se externava, através das manifestações religiosas, artísticas e culturais. Os conceitos básicos da religião e da cultura eram transmitidos aos jovens por meio de programas culturais e recreativos para todas as idades. O clube preenchia todas as funções: socialização da criança, transmissão das tradições e festas religiosas importantes para a identificação do jovem com a comunidade e também como local para namoros e casamentos.


Outras entidades

À medida em que as etapas foram sendo vencidas na questão da educação básica e na participação da vida cultural da nova sociedade, os valores do judaísmo passam a ser transmitidos não mais exclusivamente em casa, uma vez que, a escola, o clube e os movimentos juvenis assumem a maior parte dessa responsabilidade. Assim sendo, o conjunto dessas instituições e mais o fato de se manterem fisicamente próximas, por se concentrarem num mesmo bairro, para moradia e negócios, asseguraram aos judeus, até os anos 50, os mecanismos simbólicos do judaísmo a serviço da comunidade.

Para os encontros comunitários, a princípio, reuniam-se em salões alugados no Cais José Mariano, depois na Rua da Imperatriz e depois na Conde da Boa Vista. Só em 26 de agosto de 1937, à rua Dom Bosco nº 687, conforme pode ser visto no documento apresentado no Anexo B, é que se instalam em terreno próprio para formar o Círculo Israelita de Pernambuco. Funcionou neste endereço até 1948. Muda depois a denominação para Centro Israelita de Pernambuco (hoje, Federação Israelita de Pernambuco).

A atmosfera de uma integração positiva pode ser atestada, entre outros registros a serem apresentados no decorrer dos próximos capítulos, por recortes de jornais da época obtidos em acervos particulares.

Diante da dissidência política entre progressistas e sionistas funda-se na década de 1950, o Clube Hebraico, que funcionou concomitantemente, sendo posteriormente extinto, voltando a comunidade à sua unidade anterior. As mudanças de lideranças na comunidade substituem mais uma vez o nome da entidade, que passa a ser conhecida como Centro Cultural Israelita de Pernambuco, para finalmente, na década de 60 se efetivar como Centro Israelita de Pernambuco.

A efervescência política interna da comunidade provocou naquele tempo um desdobramento das entidades existentes em outras, que recebiam novas denominações. Algumas adotavam nomes de líderes expressivos na linha política seguida. Assim surgiram, entre outras, a Sociedade Cultural Israelita Chaim Jitlovsky, a Vita Kempner, entidades femininas de serviço Wizzo, Pioneiras e Relief; Clube Hebraico e os movimentos juvenis Hachomer Hatzair e Dror Habonim, todos ligados às tendências progressistas e sionistas, respectivamente. Existia o Círculo de Leitura, Teatro Idish e biblioteca, através dos quais eram desenvolvidas as atividades culturais. Já na primeira geração nascida no Brasil, surgiram o Centro Cultural Israelita de Pernambuco e o Grêmio Cultural Scholem Aleichem e o TEIP – Teatro de Estudantes Israelita de Pernambuco , além dos grupos de dança do Colégio Israelita Moisés Chvarts e do Ichud Habonim.

As diferentes atividades sociais e culturais dinamizavam a vida da comunidade reunindo os imigrantes e os jovens nascidos no Brasil. Assim, alternavam festas de Carnaval, Reveillon, com festividades comemorativas de eventos judaicos. A importância desse registro deve-se ao contraste entre o modo de vida restritivo na Europa e a flexibilidade para incorporar várias opções de uma vida social judaica e não judaica. Nesse sentido, a tranquilidade proporcionada pela liberdade diante dessas alternativas já apontava para a conjunção de fatores que delinearam a identidade do grupo.


O cemitério

Urgia solucionar uma das primeiras necessidades: a de sepultar os mortos já mencionada na carta de Avrum Ishie Vainer. Na época, em todo o continente latino-americano, os cemitérios eram monopólio da Igreja, cujo acesso era condicionado ao batismo. Até a construção do Cemitério Israelita do Barro, fundado em 05/04/1927 e inaugurado em 02/06/1927, os falecidos eram enterrados no cemitério de Santo Amaro e posteriormente transladados para o cemitério judaico. Lembrando o fato, T.G. 70, primeira geração nascida no Recife, informa:

(…) começou-se a pensar num cemitério…e só tinha da primeira entrada até onde tem uma construçãozinha. Ali lavavam os mortos. E depois comprou-se a outra parte, que lamentavelmente já está completa hoje. (…) uma coisa curiosa é que neste cemitério, por desinformação dos fundadores, ficaram separados as mulheres para um lado e os homens para o outro. No entanto, isto só é exigido, para os judeus, na Sinagoga.

Quanto aos serviços religiosos, inicialmente, eram conduzidos nas casas dos principais líderes da comunidade. Geralmente, se destacavam aqueles que eram portadores de elevado nível de conhecimento sobre a religião judaica e também, aqueles que desfrutavam de uma situação econômica mais consolidada. Neste último aspecto, esta liderança emergia do papel desempenhado por estas pessoas nos encaminhamentos necessários à absorção dos novos imigrantes, tanto na vida comunitária como na dinâmica da cidade.

Desta forma, algumas dessas sinagogas estabelecidas eram conhecidas pelo nome do líder, seguido do nome da sua cidade de origem. O Shil Scholem Ocnitzer era liderado pelo senhor Scholem Fainbaum, sendo Ocnitzer a sua naturalidade. Funcionou na rua Martins Junior, n. 29, no bairro da Boa Vista, de 1910 a 1925.

Posteriormente, nesse mesmo local, foi fundada a Synagoga Israelita da Boa Vista, tendo funcionado com este nome de 1927 até 1986. A primeira diretoria (1926) foi assim constituída: Pres.- Jayme Averbuch; Vice – Samuel Fainbaum; Thesoureiro – Maurício Simis; Vice – Aron Tabatsan; Secretário J.Faimbanns; Conselho Fiscal – ?.

A Sinagoga Sokoron (a maior parte de seus fundadores eram de Sukuron), fundada em 1916, sob a liderança de Abraão Josué Vainer (Avrum Ishie), Abrãao Cherpack, Scholem Fainbaum, Elich Foigel para comemoração dos dias sagrados.

O Shil Chaim Leib (1940-1965) era conduzido pelo senhor Chaim Leib Kelner, avô do Dr. Salomão Kelner, e pelo shoichet Guedalie Rath. Era considerado Talmud Torá (local de estudo da Torá). Funcionava durante as grandes festas e no shabat.

A Sinagoga dos Sefaradim atualmente extinta, funcionou entre meados de 1930 até meados de 1940, na rua da Matriz nº 84. Depois passou a funcionar em dependência da sede do Centro Cultural Israelita de Pernambuco, na Rua da Glória, 215, até a década de 1950, quando os sefaradim se dispersam por motivo de migração interna no país, falecimentos e uniões com não-sefaradim.

A Sinagoga Israelita da Boa Vista, fundada em 20 de julho de 1926, atual Sinagoga Israelita do Recife, assim denominada a partir de janeiro de 1987, em decisão tomada numa reunião extraordinária, realizada à rua Martins Junior, n.29, por um grupo de ativistas que assumiu a direção da mesma. Na sede do Centro Israelita de Pernambuco os serviços religiosos de Yom Kipur e Rosh Hashaná são conduzidos com uma ambientação provisória para essa finalidade.

Existe ainda o Centro Judaico de Beneficência Beit Chabad desde 1987, como segmento ortodoxo do judaísmo, em cuja sede funciona a Escola Yavne para crianças do 1º Grau.